
Um livro pode mudar o rumo de uma vida. Foi o que aconteceu com o personagem Fernandinho em “As Aventura do Avião Vermelho”, com a leitura de “O Capitão Tormenta” e com o escritor gaúcho Celso Gutfreind, após ler o livro em que se baseia nosso filme. Ele relata essa experiência literária no texto abaixo, publicado no jornal Zero Hora e gentilmente cedido por ele para o nosso blog. Confira!
****
Eu era um guri de apartamento; desses que nunca teriam vaga de personagem em “O Tempo e o Vento”. A praça ou um lugar ao sol soavam feito música ao longe. Eu era um pequeno prisioneiro do concreto no 12º andar de um bloco 2. Tinha um cachorro, mas ele também era urbano, neurótico; gostava mais de elevador do que de grama, não sabia roer osso nem namorar; 12 anos depois, morreu solteiro e virgem; o resto de sua história é silêncio. Mas nessa época houve outro incidente, não em Antares, mas em Petrópolis: a família mudou-se para uma casa com quintal, árvore e música de vento em galho bem pertinho. Um solo de clarineta bem tocado. Finalmente, houve formiga, bicho-cabeludo, fruta madura e podre, caminhos cruzados entre um guri e uma vida. Mas cadê olhos para ver as cores, ouvidos para ouvir o solo, habilidade para subir no galho, jeito para cair?
Chegou o primeiro terapeuta, que era o segundo cachorro. Criado em quintal, tornou-se cadelhengo (”cachorro mulherengo”), teve seis ou sete casamentos e descendência farta. Meu pai foi processado pelo vizinho, dono de uma poodle com pedigree irretorquível até ser arranhado pela gravidez precoce e indesejada, obra extraconjugal do cadelhengo. Naqueles anos 70, o teste de DNA, se existisse, seria dispensado diante dos filhotes jamais assumidos pelo pai à cara deles. Mas o caso do guri era mais grave, incompetência para quintais, falência para árvores, alergia a terra e passarinho.
Foi quando chegou o segundo terapeuta: “As Aventuras do Avião Vermelho”. O guri Fernando, herói do livro, faria um bom profissional hesitar no diagnóstico: déficit de atenção com hiperatividade? Transtorno de conduta? O gordinho não parava quieto, não obedecia, não era bonzinho. Até que um livro também caiu nas suas mãos. Era a história de um avião bem valente com um capitão bem legal, o Tormenta.
Tormenta viajou no livro, Fernando viajou em Tormenta, eu viajei em Fernando. E fomos todos à África caçar leão e à Índia dar tiro em cobra. Eu continuava lendo no quintal, mas Fernando teve mais sorte; ganhou do pai um avião vermelho de verdade na mentira da história; daí ao sonho foi um tiquinho, Fernando fez amizade com urso e mosca e deu jeito de entrar pra valer naquele avião de ilusão. E viajou, tomou sorvete de estrela, salvou porco chinês, foi prisioneiro. E naufragou, mas com tanta imaginação que não foi difícil safar-se, voltar à tona no Brasil e me reencontrar no quintal.
Agora sim eu já não era um guri de apartamento. Sabia sonhar como Fernando, ousar como Tormenta e sobretudo imaginar como Erico. Já podia ver a cor da terra, ouvir o solo da clarineta, subir no galho e ir ao céu. Penso que nasci naquela história. E sinto que, graças a ela, não vou morrer solteiro e virgem.
*Celso Gutfreind é escritor e médico. Como escritor tem cerca de 20 livros publicados, entre poemas, contos infanto-juvenis e ensaios.